Um romance baseado em uma história real.

E Se Não Fosse o Fim?

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Amostra gratuita — Prólogo e Capítulo 1

Prólogo

"Toda história tem um ponto de chegada que o leitor reconhece antes que o narrador o confesse. Este é o meu."

É agosto de 2024, e estamos de patins na margem do Limmat.

Ela vai à minha frente — ou fica ao meu lado, dependendo do trecho da ciclovia, da inclinação do terreno, do humor de cada curva. Há música. Há o rio. Há o sol de Zurique que em agosto decide ficar até as nove da noite como se soubesse que o inverno está chegando e quisesse esticar o prazo tanto quanto possível.

O Limmat corre com aquela indiferença serena dos rios que não precisam se justificar. Verde-azulado, frio mesmo em agosto com a memória das montanhas de onde desceu, com o fluxo que já existia quando esta cidade não era cidade e que vai continuar quando a cidade for outra coisa. Nós passamos ao lado dele com os patins e o sol e a conversa que vai e volta sem hierarquia de assunto — o que aconteceu no trabalho, uma coisa que ela lembrou do Rio, uma música que eu quero mostrar a ela, uma coisa que ela quer que eu prove da próxima vez que for ao Brasil.

Ela ri de alguma coisa.

Não lembro o quê — a conversa não tem gravação, não tem transcrição. Lembro o riso. A forma que ele tem, que reconheço há mais tempo do que a maioria das coisas que conheço, que não mudou em todos esses anos de um jeito que importasse.

O sol vai chegando ao horizonte com a lentidão generosa do verão europeu.

Paramos num banco de pedra na margem. Sentamos com os patins ainda nos pés, as pernas pesadas daquele cansaço bom das tardes que fizeram o que as tardes deveriam fazer. A cidade atrás de nós vai ficando dourada. O Limmat na frente continua no seu ritmo — que não é nosso ritmo e nem precisa ser.

Em casa, o Bagheera está esperando.

Não de forma óbvia — o Bagheera não faz questão de parecer que estava esperando. Mas está no corredor com a presença calculada de quem escolheu o ponto estratégico onde a chegada de alguém inevitavelmente passa. Grande, escuro, com a autoridade tranquila de quem é dono do espaço e está apenas tolerando os humanos com a generosidade que acha razoável naquele momento.

A Luna aparece de trás do sofá.

Menor, mais discreta, com aquele modo de entrar numa cena como se não tivesse certeza se foi convidada. Vai até a Thaiana com a cautela de quem já decidiu que esta pessoa é confiável mas ainda gosta de confirmar essa decisão a cada encontro.

Ela abaixa para dar atenção aos dois. Primeiro ao Bagheera — porque o Bagheera não aceita ser segundo. E quando ela se abaixa, ele esfrega o rosto e a cabeça no rosto dela, naquele jeito gato de marcar o que considera seu. Depois a Luna, que aceita o carinho com a rendição felina que é o modo das gatas de dizer está bom, pode ficar. Nenhum dos dois é de colo. Mas de carinho são — e cobram o seu.

Há o cheiro do apartamento — às vezes um incenso de canela que a gente acende depois de limpar a casa. O café que eu faço para mim enquanto ela tira os patins, e o chocolate quente que preparo para ela, que nunca foi de café. A luz que entra pela janela naquele ângulo de fim de tarde que eu havia aprendido a gostar antes que houvesse razão adicional para gostar.

Ela se instala no sofá. O Bagheera chega perto, esfrega a cabeça no braço dela, cobra o carinho que acha devido. Eu trago as xícaras.

Este livro começa no inverno de 2002.

Começa num rapaz que havia chegado à Suíça no inverno de 1998, ainda menino, com uma mala e a vaga esperança de que a vida fosse diferente dali. Começa numa menina com um idioma novo e a coragem de quem ainda não sabe o que está enfrentando. E passa pelo Letten — o trecho do Limmat onde o rio alarga e as pedras criam um espaço que no verão enche de suíços que mergulham na água fria como se isso fosse normal, e que no inverno fica quieto, no silêncio que o frio faz.

Houve beijos antes — um na adolescência, um num carnaval que ninguém soube explicar. Mas o amor de verdade demorou o que precisou demorar — e chegou, enfim, onde sempre devia ter chegado.

Tudo que está entre aquele inverno e esta tarde de agosto com os patins e o Limmat e os gatos e o chocolate quente — os continentes cruzados, os anos de silêncio, as escolhas que foram feitas e as que não foram, os relacionamentos que foram tentativas honestas de encontrar o que eu já sabia que havia perdido — é o que este livro contém.

Não é uma história simples. Foi parar em vários lugares errados com a convicção de quem procura o caminho e só descobre o erro ao olhar para trás, muito tempo depois.

Mas é uma história que chegou aqui.

A este apartamento entre o Irchelpark e o Limmat. A esta tarde de agosto com o sol que teima em não ir embora. A esta mulher no sofá, o Bagheera esfregando a cabeça no queixo dela, o chocolate quente esfriando devagar enquanto ela e eu falamos de nada e de tudo com aquela facilidade que só existe entre as pessoas que se reconhecem.

Levei vinte e dois anos para chegar até aqui.

E não me arrependo de nenhum deles — porque cada um, mesmo os que doeram, foi necessário para que este fosse possível.

Vamos começar.

Capítulo Um

Onde o Silêncio Mora

"Talvez nos tenhamos conhecido primeiro pelo

silêncio. Depois, pelo olhar."

A TARDE DO TRAM

Primeiro o sino — aquele que o condutor toca o dia inteiro, tantas vezes que a cidade nem escuta mais.

Eu ainda estava no meu primeiro ano de Suíça. Uma tarde sem nada de especial, o céu baixando para aquele cinza que Zurique veste no fim do ano — eu e a minha irmã Raquel na parada, esperando o tram chegar.

Ele apontou na rua. O sino tocou, como sempre toca. Mas dessa vez não parou de tocar. E então veio o outro som: o freio de emergência, fundo, o metal raspando o trilho. Esse eu nunca tinha ouvido. Uma mulher tinha decidido atravessar — com pressa, talvez, ou achando que dava tempo. O condutor fez tudo o que se faz quando ainda há um instante para impedir o que está prestes a acontecer.

Não foi suficiente.

Vi o casaco dela — bege, comprido, botões dourados — e depois não vi mais. Vi o reflexo do vagão correndo no asfalto molhado.

E então a cidade que eu julgava lacrada se abriu de uma vez.

As pessoas em volta gritaram. Não um grito — vários, sobrepostos, o som que o horror tem em qualquer língua porque não precisa de nenhuma. Uma mulher levou a mão à boca. Um homem largou a sacola no chão e correu. Outro já tinha o telefone no ouvido, falando rápido, chamando a ambulância com a voz que treme mesmo quando se está fazendo a coisa certa. Em segundos havia gente ajoelhada no asfalto, mãos tentando, vozes pedindo espaço, pedindo calma, pedindo que alguém afastasse as crianças.

Minha irmã me puxou pelo braço antes que eu chegasse perto. Eu não resisti — mas fiquei olhando para aquele ponto do chão por mais tempo do que devia, como se houvesse ali algo que precisasse ser entendido antes de eu continuar andando.

Era a primeira vez que eu via a morte chegar sem aviso. E o que me marcou não foi a cidade ter sido fria. Foi o contrário. Foi descobrir que, por baixo da ordem, das cortinas passadas e dos relógios certos, Zurique sangrava como qualquer outro lugar do mundo. Que aquela frieza toda era só a tampa de alguma coisa — e que bastava uma tragédia para a tampa saltar.

A sirene veio. Depois vieram os policiais, e com eles uma ordem de procedimento que era quase o oposto dos gritos de minutos antes: isolaram o trecho, mediram, fotografaram, anotaram — cada gesto preciso, como se a tragédia já estivesse sendo arrumada e guardada. A parada ficou interditada por um bom tempo; nenhum tram passou mais por ali naquela tarde. Fomos a pé até outra linha — e lá, nos outros trilhos, os trams seguiam pontuais, como se o mundo ainda fosse o mesmo de uma hora atrás. A cidade fechou de novo sobre si mesma, recompôs a tampa, voltou a ser a cidade de sempre.

Mas eu já tinha visto.

Do resto, foi o casaco que ficou. Bege, comprido, botões dourados — a memória escolheu guardar isso: a roupa que alguém vestiu de manhã, sem saber que era pela última vez.

Depois daquele dia, comecei a reparar no som dos meus próprios passos sobre a neve. Como quem confere, a cada passo, se ainda está aqui.

Faltavam três invernos para esta história começar. Mas foi naquela tarde que eu conheci a cidade onde ela ia acontecer — a Zurique de verdade, a que mora debaixo da tampa.

O FRIO DE DENTRO

A cidade dormia cedo. As ruas se apagavam antes que a noite dissesse a que viera, e o frio que sobrava não era o do termômetro — era um frio que entrava pela frente da camisa e se instalava num lugar mais fundo, onde o casaco não alcança.

Eu tinha chegado um inverno antes, com dez anos e uma mala. Conhecia a Suíça de umas férias curtas com a Raquel; agora era para ficar. No começo eu não falava uma palavra de alemão. Na escola, isso era uma parede nova a cada dia — os sons, os rostos, o jeito de pedir as coisas. Aprendi na marra, porque não havia outro jeito.

Um dia eu só queria entrar na pelada do recreio. Achei que "futebol" fosse palavra do mundo inteiro: falei, e os meninos me olharam sem entender. Então chutei a bola para a frente e apontei. Os rostos se abriram num sorriso — "Ah, Fussball!"

Ganhei mais que uma palavra naquela tarde. Ganhei um jeito de existir entre eles antes de saber dizer quem eu era.

Minha mãe explicava que tínhamos vindo atrás de uma vida melhor, de estabilidade. A minha infância tinha sido o contrário disso: criado pela tia até os oito, depois a casa dos irmãos — nunca fiquei num lugar tempo suficiente para criar raiz. Pai, eu não tinha. Só o Dia dos Pais na escola, quando os outros enchiam a sala e ninguém entrava por mim — a gente aprende cedo a ficar quieto nessas horas, a olhar para a porta e fingir que não está olhando.

Por isso a Suíça, com todo o frio, tinha uma coisa que o Brasil nunca tivera: uma mãe e um padrasto presentes. E eu trazia as duas coisas ao mesmo tempo — o alívio de talvez pertencer a algum lugar e o medo de não pertencer a lugar nenhum.

Sentia falta do barulho. Da feira, do rádio da vizinha, do cachorro latindo na pracinha — da bagunça que faz a vida parecer real. Aqui, até a tristeza se escondia atrás de cortinas bem passadas.

A casa que o meu padrasto e a minha mãe alugavam ficava perto do estádio do Letzigrund — nos fins de semana de jogo a rua enchia, e por algumas horas o bairro tinha o barulho de que eu sentia falta. O meu canto era a sala: um sofá-cama que eu abria toda noite e fechava toda manhã, como se a minha presença ali também precisasse ser dobrada e guardada antes do café. Sentava perto do vidro embaçado — o morno do radiador de um lado, o frio do vidro do outro — e escrevia e desenhava nos meus cadernos, jogava videogame: inventava espaços onde eu cabia inteiro.

Quatro invernos se passaram assim. Aprendi o idioma, os trilhos do tram — o bonde pontual que costura Zurique —, os nomes das ruas, a hora exata em que a padaria da esquina acendia a luz. Tempo suficiente para reconhecer a cidade; tempo nenhum para entender o resto — os gestos, as regras que ninguém ensina, o que cada silêncio carregava por baixo. Eu via a vida dos outros acontecer bem na minha frente e não sabia como entrar nela. Estava ali e, ao mesmo tempo, do lado de fora.

Era novembro de 2002. E a cidade sempre dava um jeito de lembrar o quanto eu estava longe de casa.

NA MESMA CIDADE

Ela empurrava o carrinho pela neve. As rodas afundavam e rangiam no gelo, e a cada guia de calçada era o corpo dela que compensava — o puxão nos ombros, a força nos pulsos, a inclinação de peso que ninguém ensina e que o corpo de quem cuida aprende sozinho. O irmão, o Anthony, dormia lá dentro, respirando devagar, alheio a tudo.

Desde que o Anthony nascera, ela tinha virado "a ajuda" da mãe. Mamadeira, fralda, banho, vigília. As outras meninas da escola falavam de férias; ela contava as horas até o próximo choro. Viajar com as amigas, nem pedindo — os pais não deixavam. Nem festa à noite. E não deixariam tão cedo: anos depois, já com os dezoito feitos, a resposta em casa continuaria sendo a mesma. O cansaço dela não era ideia — morava no corpo: na lombar ao fim do dia, nos braços que embalavam sozinhos, no ouvido que não desligava nem no sono. Às vezes queria só não ser nada — nem ajuda, nem forte, nem responsável. Só alguém com o direito de estar cansada.

O ar mordia as bochechas e fazia da respiração uma nuvem pequena que nascia e desmanchava diante do rosto. Ela tinha esquecido o cachecol, mas não voltaria por ele — encolheu o queixo para dentro da gola e seguiu. Caminhar era uma das poucas coisas que eram só suas, sem ninguém pedindo nada, sem ninguém precisando de resposta. Até o frio, ali, era dela.

Zurique em novembro tinha uma beleza que ela nunca conseguia admirar em paz — os lampiões cedo demais, a névoa rente ao lago, as fachadas impecáveis como cenário. Bonito do tipo onde não se pode sentar. No Brasil, quando dava vontade de chorar, ela sentava no meio-fio em frente de casa e deixava o barulho da rua cobrir o que ia por dentro. Aqui não havia barulho suficiente. O silêncio era tão limpo que era difícil esconder qualquer coisa dentro dele.

Parou na esquina. Sinal fechado. O carrinho balançou de leve e o irmão moveu a cabeça, mas não acordou. Ela soltou uma das mãos da alça — os dedos duros de frio, marcados pelo metal — e ajeitou o cobertor em volta dele, sentindo por um segundo o calor que subia lá de dentro, num contraste quase absurdo com a tarde. Ficou olhando para ele um tempo longo. Havia dias em que aquele rosto adormecido era o único lugar do mundo onde nada lhe era exigido — bastava existir do lado dele.

Ela tinha aprendido cedo a parecer inteira. Anos antes, a irmã mais velha escondera as roupas sujas em cima do guarda-roupa; quando a avó descobriu, a irmã apontou para ela sem hesitar. Thaiana ficou quieta. Explicar não adiantava. A surra veio igual. Chorar era entregar fraqueza — então engoliu, por fora e por dentro, e foi crescendo assim, no idioma de quem cala.

Agora, empurrando o carrinho com o irmão dormindo tranquilo, uma pergunta voltava sem fazer barulho: e você, Thaiana — quem segura você?

Ela fez com a pergunta o que fazia com todas as perguntas grandes: endireitou as costas, firmou as mãos na alça e atravessou a rua.

Mais adiante, parou só para vê-lo respirar. Tão pequeno, tão alheio ao peso que o mundo ainda não tinha posto sobre ele. Havia algo naquilo que a acalmava.

DOIS SILÊNCIOS

Fim de tarde. Encostei os dedos no vidro frio da janela, como quem confere se o mundo lá fora ainda está no lugar. O céu pesava em cinza. A cidade parecia conter a respiração à espera de algo que não chegava.

Do outro lado de Zurique, sem que nenhum de nós soubesse do outro, Thaiana fazia o mesmo gesto dentro de um tram — os dedos no vidro frio, a cidade deslizando lá fora, a mão imóvel mesmo com o frio queimando. O reflexo turvo misturava o rosto dela à paisagem que passava, e ela pensava como algo tão perto podia parecer tão fora de alcance.

Ela de um lado. Eu do outro. Mas os dois no mesmo lado do silêncio.

Naquela noite abri o caderno de capa preta, já na metade, cheio de desenhos inacabados e frases sem destinatário. Fiquei um tempo só olhando a página. Era estranho querer escrever sem saber para quem — mandar carta sem endereço. Mas era o único jeito que eu conhecia de não deixar tudo apodrecer por dentro. Passei os dedos no papel e escrevi devagar:

"Às vezes eu queria ser, para alguém, o motivo de atravessar a sala. Não o que se tolera num canto — o que se procura. Alguém que olhasse o que havia em mim e decidisse que valia ficar."

No mesmo instante, em outro bairro, Thaiana segurava a caneta a um milímetro do diário. Havia coisas que ficavam menores quando escritas. E havia coisas que ficavam reais demais — o que é um outro tipo de medo. Ela apertou a caneta e escreveu:

"Carrego uma esperança quase boba: a de um dia ser cuidada sem precisar pedir. De alguém me ver inteira — não só a parte que segura os outros, mas tudo o que ninguém nunca teve tempo de olhar."

O QUE O SILÊNCIO JÁ SABIA

Os dias seguiam com a precisão de relógio suíço. O despertador cedo, o tram no horário exato, o pão na padaria sempre à mesma hora. O alemão ainda sem pele — técnico, sem lugar onde pousar o afeto.

E assim caminhávamos os dois, cada um na sua metade da cidade, enganando a falta com pequenas rotinas, disfarçando o vazio com agendas cheias. Duas infâncias que vieram do mesmo Brasil. Duas solidões que tiveram de crescer cedo demais. Duas pessoas conversando sem saber, num idioma feito de pausas, olhares e faltas.

"Você tem que ser forte, Thaiana. Sempre forte."

— dizia o pai dela, italiano, que trabalhava o tempo

todo e ainda dava um jeito de cuidar da casa.

Naquele dia, Thaiana aprendeu que às vezes amor era sinônimo de resistência. E resistir virou o idioma dela.

Zurique, com a sua ordem de gelo, ia preparando — sem pressa, sem aviso — o instante em que aquele silêncio deixaria de ser ausência e viraria presença. Mas isso o inverno ainda escondia bem.

Porque há ausências que já nascem com nome. Só demoram a ser ditas.

E ela ainda não sabia: anos depois, ao olhar nos olhos dele, entenderia tudo. Não com palavras — com tudo aquilo que, enfim, encontrava como ser dito.

A história continua

E Se Não Fosse o Fim? chega em 18 de setembro

de 2026 — o dia do nosso casamento — em livro,

ebook e audiolivro narrado pelas nossas vozes.

pablolima.com

Os bastidores: @thaianaepablo Este livro é uma obra de memória: nomes e detalhes foram alterados para preservar

Este é o começo. O livro completo chega em 18 de setembro de 2026.

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